Pequenas notas e outras trivialidades #12
Escrevi “duas ou três lágrimas (muito poucas)”, e não escrevi a verdade. A não ser que tema que alguém se aperceba, de facto, chorar “duas ou três lágrimas (muito poucas)” é para mim uma impossibilidade. Choro rios se choro ou não choro nada, em absoluto. Promovo maremotos se me agito, ou mantenho a imobilidade da pedra. Nunca soube o que são aguaceiros, só conheci a violência das chuvas torrenciais. E desaprendi a concessão e por isso me lanço ao exageros que traduzem o coração.
Não quis mentir (não quis mentir-Te); quis só resguardar-me um pouco, se resguardo é possível contra aquele a quem rendemos a absoluta transparência acerca de nós mesmos.
A verdade é que são rios, meu Querido, são rios de dimensão amazónica… “I’ve made my baby cry; I’ve made my baby say goodbye”, tendo sabotado sem tréguas ou contenções, todas as tentativas carinhosas e dedicadas que ele fez de me salvar de mim mesma. Ora, isso, hoje, parte-me o coração.
Passei a crer que o modo como assumimos as nossas culpas, quando são pesadas e gravosas, distingue-nos. Procuro fazê-lo sem regateios ou desculpas, sem discussões ou desafios, em silenciosa (constrita) dignidade.
Mas por mais fortes que procuremos ser, o silêncio e a intimidade convidam frequentemente à fraqueza (ao conforto da fraqueza) e nessas vezes preferia ter um rio, infinito e aberto à infinitude, através do qual pudesse deslizar para longe, em vez de permanecer onde me confronto com as minhas culpas. Indulgentemente permito-me ser fraca nesses momentos. Que valor teria aliás a conquista da fortaleza se fôssemos completamente estranhos à fraqueza?





















