Dica #1/100 | Integração e sistema de apoio para caloiros e não só
A minha experiência mostra-me que a principal razão do insucesso e do abandono na Universidade é a ausência de uma adequada integração e de um falho sistema de apoio. Ora, a questão é mais complexa quanto nem sempre o aluno se apercebe da precaridade da sua integração e suporte até que desesperadamente dele necessite, e quanto essa necessidade tenda a manifestar-se nos períodos menos propícios ao desenvolvimento das redes que entretanto se tornaram indispensáveis. O fim do primeiro semestre do primeiro ano de Universidade é geralmente o período da prova de fogo: quem desiste já não volta; quem fica ou volta já não desiste. E acreditem quando vos digo que é esse o período de todas as fraquezas, de todos os desesperos, de todos os choros, dos psicólogos, dos conflitos e dos pedidos de ajuda. Os alunos do Pós-Laboral passam por essa fase de modo especialmente sofrido.
A integração do aluno começa no primeiro dia em que se dirige à nova Escola. A qualidade da rede de apoio que terá depende da sua capacidade de informalmente a delinear nas primeiras semanas e meses de aulas. Como tudo, também aqui, uns são mais aptos que outros: uns integram-se e “enturmam-se” automaticamente, facilmente e de modo bem enraizado. Esses, sem se aperceberem, constroem aí o seu maior garante de sucesso. Outros, por seu lado, têm mais dificuldade em fazê-lo e/ou beneficiariam de alguma ajuda em fazer desse um processo mais fácil e eficiente. Esta dica #1 é especialmente dirigida a estes últimos e compõe-se de uma lista de truques (ou passos) que, se seguidos, prometem tornar tudo mais fácil. Apesar dos caloiros serem aqueles que mais tenderão a beneficiar desta dica, ela pode ser útil também a quem inicia numa Universidade que não conhece uma Pós-Graduação, Mestrado ou Doutoramento.
Passo 1. “Conhecer os cantos à casa”. Os primeiros contactos com a Universidade para onde vamos estudar são geralmente administrativos: uma matrícula, um esclarecimento ou uma aquisição. Como procede a maioria? Entra, trata dos assuntos e volta para casa, meio intimidado, meio ansioso, meio perdido, esperando que o futuro resolva esse sentido de inadaptação. Ora, a maioria agindo assim, age mal. O primeiro passo da integração deve ser desde logo, tão cedo, quanto possível, o de “fazer-se em casa”, isto é, o de “substituir os sapatos pelas pantufas” no novo ambiente que será o nosso. Como se faz isso quando se chega a uma instituição nova? Combatendo e vencendo o mal-estar do desajuste que vem com o sentido de desconhecido. Assim, o primeiro dia deve ser o dia de vencer a vergonha e de entusiasmar-se no papel de detective. Sozinhos ou acompanhados com um amigo que tragam propositadamente “de casa”, corram todo o recinto. Entrem em todos os elevadores, saiam em todos os andares, percorram todos os corredores, leiam as placas nas portas, explorem todos os becos e cantinhos e construam um mapa mental do lugar onde possam desde logo situar os serviços mais importantes. Depois, não deixem de experimentar: vão às casas de banho, percorram as livrarias, comam no bar e sentem-se na esplanada a ler ou a conversar. E não se coibam de bisbilhotar um pouco: nos placards das notas, nos avisos que não vos dizem respeito, nos horários e nos menus. Tudo isto permitir-vos-á ganhar confiança no espaço, fisicamente diminuir o constrangimento de se sentirem perdidos e desinibir-vos para o contacto social.
Passo 2. “Dona Alcina, pode ajudar-me?”. Se têm boa memória usem-na; se não, andem com um bloco no bolso nos primeiros dias. Além de explorar a casa, o segundo passo de preparar a vossa melhor integração é o de personificar os vossos contactos, de modo a facilitar o acesso ao apoio. “Olhe, pode ajudar-me?” é o discurso de quem está perdido. “Sr. João, onde é que trato disto?” é o discurso de quem já tem as “pantufas nos pés”. Não saiam da Escola, no primeiro dia que a visitam sem saber pelo menos três nomes: por exemplo a D. Joana da Secretaria, a D. Ana da Recepção e a D. Maria do bar. Não só se sentirão mais “em casa” e “senhores da situação” quando voltando souberem dirigir-se às pessoas, como verão que isso vos dará uma maior consciência de facilidade – arrumarão mentalmente tarefas e pessoas e isso diminuirá a incerteza e a ansiedade nos contactos. O ideal aliás é que consigam estabelecer relações pessoais, comentando o campeonato com quem fala do seu clube ou elogiando uma criança e falando dos vossos sobrinhos: tudo é mais fácil e natural – mais caloroso – quando há pontes estabelecidas e quando podemos começar com: “Boa tarde D. Maria, como está a sua filhota?”.
Passo 3. “Os cantos da casa virtual”. Chegando a casa sentem-se ao computador e “metam o nariz em tudo”. Leiam o site da Escola e da Associação de Estudantes de ponta a ponta e anotem tudo o que tiver interesse para “meter o nariz” ainda em mais. Pesquisem sobre os Professores que vão ter, sobre as Cadeiras que terão e sobre os alunos que as tiveram. Pesquisem sobre a Tuna, sobre os Núcleos de Estudantes, sobre Publicações e Órgãos da Escola e tornam-se especialistas em coisas importantes e trivialidades, em utilidades e fait divers. Verão como poderão passar rapidamente “a tratar a Escola por tu”, o que torna tudo muito mais fácil. E claro, vão fazendo anotações no bloco de coisas úteis e mantenham-no no bolso. Ele dar-vos-á uma sensação de segurança muito grande.
Passo 4. Amigos de toda a gente! Ah têm conta de Facebook, Twitter e semelhantes? Ah têm um endereço de e-mail? Então toca a subscrever todas as newsletters da Escola e das suas unidades e toca a fazerem-se amigos de toda a gente. Dos Professores que vão ter? Claro! De alunos da Universidade para onde vão? Claro! Se precisam de os conhecer antecipadamente? Claro que não! Escrevam no vosso perfil que estudam na Escola x ou que vão nela estudar e comecem a conversar. As redes sociais servem exactamente para se construírem redes!
Passo 5. Praxes? Quantas mais melhor! As praxes devem ser vistas como um Programa Avançado de Integração. Estão portanto proibidos de faltar, arranjar desculpas ou manter expressões entediadas ou pesadas. As praxes são fabulosas por três razões essenciais: a turma não está apenas junta, mas obrigada a manter-se como grupo; as melhores pessoas do mundo para vos ajudar estão mesmo ali à mão: os alunos do 2º ano, que acabaram de passar pela situação de caloiro e que, na esmagadora maioria integram as comissões de praxe; nada une mais as pessoas que as emoções fortes, sejam momentaneamente as de infortúnio, desconforto, entusiasmo ou felicidade. Nas praxes haverá de tudo isso e verão como são divertidas e preparadas para vos receber e divertir. Depois, não há melhor sítio para recrutar um padrinho ou uma madrinha de curso e, se escolherem bem, verão que terão um aliado fabuloso para todo o vosso caminho. Quanto a isto aconselho: escolham menos quem já conhecem e mais quem, embora não conhecendo, mostra ser alguém activo e envolvido na vida universitária. De quem conhecem já beneficiam, aliás – nada como diversificar e adicionar!
Passo 6. “My first wing man“. Precisam desde logo de um braço direito – de alguém ou de vários alguéns a quem se possam “atrelar” nos primeiros tempos. Escolham logo, não importa muito quem. Vão ter com quem julguem ser alunos do vosso curso e ano ou, simplesmente, com aqueles que o tenham escrito na testa em razão das praxes, e comecem a conversa – não terão de novo tantas desculpas para o fazer como agora. Perguntem por um sítio, sobre um papel, sobre uma data… qualquer coisa. Quando tiveram alguém a quem se dirigir, para vos acompanhar e com quem “tagarelar” tudo será ainda mais fácil. O mais difícil nesta fase é ultrapassar o receio e a ansiedade. Ora, é dividindo esses sentimentos que eles mais facilmente se ultrapassem.
Passo 7. Tudo a seu tempo. Esqueçam as Cadeiras durante as primeiras duas semanas. Naturalmente vão às aulas e sigam-nas, mas entendam que a vossa tarefa primordial nas primeiras semanas não é a de estudar, mas a de se situarem e integrarem. Ninguém define as suas proezas académicas por se concentrar completamente, demasiado precocemente, no estudo, mas o vosso lugar nas dinâmicas coletivas que se estão a formar, quer queiram quer não, é cristalizado nessa altura. Sejam aqueles que quando necessitarem terão quem vos passe apontamentos, quem partilhe convosco uma piada sobre um Professor ou vos acompanhe numa tarde de estudo. Não sejam aquele que quando necessitarem (porque vão necessitar) de algo, estão isolados pois escolheram isolar-se quando as relações se formaram. Serão mais ricos e potencialmente mais bem sucedidos academicamente se escolherem a via do “tudo a seu tempo”.
Passo 8. Acabaram as aulas. E agora? Agora, e enquanto passam os primeiros dias e semanas, nem pensem em voltar para casa! O caminho é o do bar, do jardim, do restaurante ou da casa de um e de outro, mesmo que não vos apeteça muito, pois têm uma personalidade mais privada e/ou menos sociável. Se impossível beneficiar da proximidade física, aliás, não deixem de usar as redes sociais. E comecem logo que possível a cruzar os amigos que trazem com aqueles que fazem. Cimentem as relações para cimentarem as fundações sobre as quais erigirão para os anos que se seguirão quer o vosso sistema social, quer o vosso sistema de trabalho. Acreditem que estes conselhos que parecem banais, são sábios e feitos de experiência (boa e má). Por isso, se ninguém perguntar, perguntem vocês: “Vamos comer um hamburguer?”.
Passo 9. Construir um plano de contingência. Ninguém é infalível e todos podemos mudar de ideias. É importante tomar consciência de que a fraqueza não está em passar a querer outra coisa mas em falhar ter a coragem de o enfrentar e assumir logo que essa vontade se revela. Se mudarem de ideias ajam logo; não deixem que as expectativas dos outros ou o receio de começar de novo vos afastem de encontrar o que procuram. Por isso, é importante pensar não apenas no sucesso mas também no insucesso. A ansiedade encontra-se no desconhecido, pelo que a reduziremos se mantivermos um plano de contingência. Esta questão será objeto de outra dica, ainda assim, aconselho desde já a que perguntem e estudem o processo que vos permite mudar de curso e de Universidade. O que parece “o fim do mundo” nunca o é, e descomplicar as coisas (compreendendo-as) é a melhor protecção contra más decisões motivadas pelo medo do desconhecido. Já vi de tudo e, há pouca infelicidade que se compare àquela de que sofre um aluno que se culpabiliza e martiriza por não ter feito uma mudança por medo ou falta de coragem. Ter um plano de contingência é abordar todas as possibilidades connosco próprios, com os nossos Pais, colegas e Professores e conhecer ao pormenor o que uma opção alternativa implica. Não deixem de ter um. Com ele traçado, serão mais seguros e capazes de realizar escolhas.
Passo 10. Construir um plano de crise. As crises são múltiplas mas são essencialmente produto das seguintes situações: inesperado insucesso escolar, desintegração social na turma e na Universidade, problemas financeiros graves e problemas de saúde. No caso dos alunos mais velhos, as situações mais recorrentes são de inesperadas dificuldades de conciliação da casa, da escola e do trabalho e de “tentativas de sabotagem familiar” da recente carreira académica. Ter um plano de crise é reconhecer que há contextos nos quais isoladamente nada podemos e saber, porque vos digo, que quem entra em crise geralmente nunca o previu, antes cria, piamente em muitos casos, que jamais se veria nessa situação. No vosso plano de crise deverão começar por sublinhar a cor, com itálicos e maiúsculas, a seguinte regra capital: atrasar o pedido de ajuda, sempre, só torna o problema mais grave. Depois, deverão listar os vossos recursos de apoio, a que podem imediatamente recorrer se entrarem em crise. Escolham um Professor com que mais se identifiquem e com quem achem que poderiam conversar para pedir conselho e ajuda, e mantenham os seus contactos presentes. Escolham um funcionário com quem possam ter mais proximidade e em cujo conselho confiam e procedam do mesmo modo. Escolham um familiar para o mesmo fim que, idealmente, esteja fora do círculo nuclear da vossa família. Procurem os contactos dos Gabinetes de Apoio Médico e Psicológico das Universidades onde estudam e usem-nos. O ideal é que experimentem mal possam esses serviços, para os tornarem menos esotéricos isto é, para os descomplexificarem. Notem que o plano de crise pode nunca ser usado (esperemos que não), mas notem também que quem está em crise, ou tem um plano, ou tenderá a não conseguir ter a clareza de o montar e executar quando dele necessitar. Preparar-nos para o sucesso não pode deixar de ser termos a humildade e a inteligência de também enfrentar precocemente a consciência do possível fracasso.
E quanto a esta Dica #1 é tudo. Espero que estes passos vos tenham sido (ou venham a ser) úteis.
Sucessos a todos!
(Vejam aqui todas as dicas)






















Gostei imenso deste artigo, é um grande incentivo para neste novo ano letivo 2011/2012 sabermos ultrapassar barreiras e ajudarmo-nos uns aos outros com o melhor da nossa camaradagem e o melhor do nosso espírito iscspiano. Parabéns Professora Lurdes.
beijinhos
Se for útil a alguém, já valeu a pena escrever :)
Beijinhos,
Maria de Lurdes Fonseca.