Ontem não foi um dia bom…
Ontem começou como um dia excelente; ontem terminou de um modo miserável.
A minha incontrolável necessidade de pensar demais e de mastigar mentalmente (infinitamente) tudo, fez de novo, inegavelmente, estragos profundos. Não por si, mas pelas suas consequências. Inevitavelmente, em mim, a sobrerracionalização leva à momentânea convicção do direito à indulgência – a de escrever demais o que penso, e a de gritar demais o que sinto, falando sempre tão mais alto quanto o público seja mais, aquele que menos a essa indulgência quer ser exposto. Ela transforma-se pois em ataque, num ataque injusto, cobarde, que dá a prioridade da condição de vítima, àqueles que mais me são próximos e queridos.
Tentei combater o como a derrota me fez sentir mais derrotada, o como a vergonha me fez sentir mais envergonhada e o como o arrependimento me fez ainda mais arrependida, elencando as coisas que me fazem sentir melhor. Percebi que são de dois tipos: as destrutivas e as construtivas. E percebi também que não se pode dizer que prefira e privilegie as segundas, naturalmente, maioritariamente, como deveria.
Por mais tabu que seja e por mais negro que se apresente, o tema do como o sofrimento auto-infligido é tantas vezes prazeroso e libertador, tem a capacidade de me fascinar. A auto-mutilação e o suicídio são exemplos extremos daquilo com que, não o querendo aceitar, tantas vezes convivemos, naturalmente, humanamente, quer reconheçamos, quer não, o facto. É no ringue da auto-estima que estas batalhas se travam, vim gradualmente a concluir.
Quando estou extremamente deprimida, quando essa depressão me afecta o amor-próprio (fui entendendo ao longo dos anos), sinto recorrentemente mais prazer e mais alívio na auto-punição e na auto-destruição, que na auto-construção e auto-recompensa. Por isso, escolho ficar melhor comendo descontroladamente e terrivelmente; causando danos irreparáveis às relações com os que amo através de atitudes inaceitáveis; dormindo dias inteiros conscientemente prejudicando as minhas obrigações; ou, mais recentemente, fazendo exercício físico durante horas, esperando que o corpo se esgote e doa, para miraculosamente me esquecer do que me aflige.
Mas quando estou bem, quando a tristeza é passageira e o meu sentido de auto-valia é vibrante, procuro alívio e libertação em coisas positivas: na dedicação a actividades que me realizam como a escrita, o desenho ou a pintura; no ar livre e no conforto da natureza, obrigando-me aos espaços abertos e ao contacto com a luz do sol; na experiência edificante do belo, qualquer que seja o móbil do seu acesso; na permissão aos pequenos, inócuos prazeres, como uma chávena de chocolate a escaldar bebida num cenário perfeito.
Não posso negar que o primeiro impulso nunca é para mim, pelo menos nos últimos anos, para me curar através do positivo. Acho que a tristeza o facilita, pois quando estamos tristes procuramos contextos, pessoas e actividades, que se identifiquem com o nosso estado de espírito. Talvez essa tendência seja relativamente generalizada. Mas fui entendendo como funciona a cadeia causal – é que ser-se auto-destrutivo quando se está destruído não pode ser algo terapêutico, quer porque não pode recuperar o que se destruiu, quer porque corrói até aquilo que ainda era saudável. Já o fazer contactar (mesmo que inicialmente sem vontade) construção com destruição, não só começa a reconstruir o que se quebrou, como reforça aquilo que, através do cataclismo, se soube manter erecto.
É que se a luz do sol precipita o sorriso, a ira precipita a mágoa. É que se excessos alimentares prejudicam a imagem física, o belo aquece e eleva a alma. É que se me escolho “medicar” pelo negativo, verei no fim, inevitavelmente, uma pessoa pior; mas se me conseguir “medicar” pelo positivo, florescerei aos meus próprios olhos, atestando perante mim própria como sou alguém tão válido, rico e merecedor.
Só que sabê-lo é tantas vezes diferente de fazê-lo… E custa tanto, tantas vezes, obrigarmo-nos a racionalizar no sentido certo… É mais fácil abandonarmo-nos à corrente do rio que puxa, que escolhermos remar contra a força das suas vagas.
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Ontem começou como um dia excelente; ontem terminou de um modo miserável – espero que hoje ocorra o inverso. (Estou a fazer por isso.)





















Bom dia, querida Lurdes!
Li este texto, mal ele foi pubicado. Fiquei sem palavras e não consegui escrever nada. Tambem não precisa de mais palavras, diz tudo. Interroga e dá as respostas. Tocou-me, particularmente, por me sentir nele retratada. Hoje copiei e colei, numa pasta com o seu nome, para o ler muitas vezes. Acho, mesmo, que o devia ler todos os dias pela manhã, como um remédio :)
Obrigada pela partilha e pela lucidez… que me falta.
Um beijinho
Laurinda
Querida Laurinda:
Devia fazer o mesmo, para não reincidir tropegamente, sempre, nos mesmos erros…
É mais fácil quando não caminhamos sozinhos – podemos caminhar juntas :)
Mil beijinhos,
Maria de Lurdes Fonseca.
[...] em nós aquilo que nos dói que os outros anulem. Já escrevi um pouco sobre isso noutro lado: aqui, e não me vou alongar sobre isso. No meu caso isto traduz-se numa terrível (e massacrante) [...]