Os meus truques contra a tristeza
Apesar da distância, das metáforas e do relativo anonimato, é bom sentir como nos identificamos e nos compreendemos, mesmo que use o blogue, quando falo de mim, como se falasse comigo própria, quase alheia à audiência e, portanto, sem legendas ou “claridades”. Foram vários os que leram perfeitamente a minha tristeza, especialmente desde aqui e me mandaram mimos, muitos mimos, tantos mimos, que agradeço.
Bem, a tristeza faz parte da vida, a desilusão é uma fatalidade incontornável, e as decisões, ao implicarem custos, alguns muito, muito pesados, não podem deixar de arrastar consigo o coração. Mas, como então escrevi, “as escolhas são assim: ou se fazem ou aprisionam-nos”. Devem ser feitas, mesmo quando nos partem o coração.
Ontem, disseram-me que estava resplandecente, linda e a irradiar felicidade e pensei: como é possível que os meus olhos, os gestos e as palavras, não mostrem esta tristeza surda e tão funda, que me esmaga? Ontem e hoje pensei sobre isso e percebi que fui desenvolvendo ao longo do tempo, especialmente ao longo dos últimos anos, mecanismos muito eficazes contra o efeito da tristeza. É por activá-los tão bem, quando necessário, que se tornou possível desassociar o meu sentimento da minha expressão, concluí.
Talvez se tiverem tristes, assim como eu estou, possam aproveitar estes meus mecanismos ou truques, razão pela qual acho que vale a pena perder um pouco de tempo a escrevê-los.
Antes de mais, há um princípio fundamental: devemos acreditar verdadeiramente que tudo é passageiro, e devemos racionalmente manter-nos nessa convicção. Pensem nas piores coisas que vos aconteceram: as desilusões, as perdas, as dores físicas. No seu auge pareciam inultrapassáveis, e hoje já nem delas se lembram. Creiam profundamente que a tristeza que agora sentem é só uma estação da viagem e concluam que devem ter paciência. Depois:
Resistam à melancolia: Não oiçam música melancólica, deprimente e que vos reforce a tristeza e o seu racional. Rodeiem-se de música alegre, daquela tão irresistível que deixa qualquer um a cantarolar ou a bater o pé. A música é o pior… é tão poderosa… tenham cuidado com a música.
Resistam ao mal-estar: Tomem banho com sais maravilhosos e fiquem lá muito tempo, concentrando-se em vós e nas coisas de que gostam, permitindo-se ser indulgentes ao máximo, usando tudo aquilo que vos dá uma sensação de bem-estar e não vos deixe problemas de consciência (de que vale comer bolo de chocolate se depois a balança e a consciência nos vão castigar)? A ideia é afastarmo-nos do castigo, da culpa, do desconforto e do mal-estar.
Resistam à baixa auto-estima: Vistam a roupa mais bonita e passem muito tempo a escolher o perfume e a maquilhagem até se sentirem perfeitos. Se se atrasarem, o mundo não cairá decerto. Usem tudo o que puderem, em especial a aparência, para suportarem a auto-confiança e para chamarem os elogios dos outros e a sua valorização. Enganem o mundo para que o mundo vos dê aquilo que dele, naquele momento, necessitam.
Resistam ao contágio: Afastem-se de quem está triste e, quando digo afastem-se, quero dizer “fujam a sete pés”. O pior é reforçar a tristeza e racionalizá-la, especialmente encontrando apoio para ela fora de nós. Não podem oferecer nada a quem também está triste senão tristeza, e quem está triste não tem nada para vos oferecer senão isso.
Resistam à auto-centração: Rodeiem-se de pessoas alegres e bebam dessa alegria. E rodeiem-se de um grupo de pessoas ainda melhor, para “usarem” como terapia: as pessoas em necessidade: as que precisam de tempo, de atenção e de ajuda prática. Se reconhecerem que as necessidades que têm são urgentes e atendíveis, facilmente mergulharão nos seus problemas e esquecerão os vossos.
Resistam ao fracasso: Dediquem-se ao que fazem de melhor, para o sucesso ser, nesta fase, tão “à prova de bala” quanto possível. Para contrariar a tristeza é necessário alegria. Criem-na com aquilo que controlam, sendo criativos na identificação das suas oportunidades.
Resistam à generalização: Se estão tristes porque perderam um amor, não se coloquem na posição de perder outro; se estão tristes porque chumbaram num exame, não façam mais já, muito menos pouco preparados. A tristeza implica falha de resistência contra a generalização e o pior é achar que o que é um acaso afinal se revela regra.
Resistam ao desamparo: Escolham a companhia dos amigos/ namorados e outros, positivos, e que dão “colo”, metaforicamente e literalmente. Os que vos abraçam quando vêem olhos tristes e os que dão o ombro e o colo para poderem descansar e dormir. Nada se compara ao conforto físico.
Resistam à desocupação: E ocupem-se, ocupem-se, ocupem-se, afastando-se da razão da tristeza. O maior inimigo de quem está triste é o vazio: o silêncio, a inactividade, a solidão. Escudem-se deles e encham os silêncios de palavras inócuas, a inactividade de actividades inacabáveis e a solidão de pessoas.
Chorar? Sim, podem chorar, mas resistam a fazer do choro um hábito. Chorem um bocadinho quando se sentirem demasiado tristes, só como escape instantâneo da tristeza. Mas não o prolonguem; não o repitam constantemente. Se tiverem tendência para isso, chorem acompanhados de um ombro amigo, alguém que vos ajude contra essa tentação (e risco).
Tudo passa, mais cedo ou mais tarde.
Depois, tristeza é apenas a medida da dimensão da alegria. Quem nunca esteve triste, muito triste, não sabe viver, beber e dar valor à alegria e à felicidade, e quem nunca teve o coração partido não sabe dar real valor ao sucesso de amar e ser amado.





















Obrigada, professora. Ajuda tanto!
:) Felicidades, beijinhos e muita alegria!
Maria de Lurdes Fonseca.
[...] indubitavelmente, inebriante. Nem sei há quanto tempo o não fazia, mas lembrei-me que fazia parte do que vos tinha sugerido contra a tristeza, o que se aplica também a outras formas de [...]
Gostei muito de ler, conseguiste verbalizar o que penso, e é tão bom ler e sentir que se está no caminho certo contra a tristeza.
Caro João:
Obrigado pelo comentário e pela visita. Caminhamos pelo mesmo caminho… que tenhamos ambos sucesso.
Um abraço e felicidades,
Maria de Lurdes Fonseca.
Querida Lurdes, faço minhas a suas palavras aqui escritas! sinto do mesmo modo, e nem imagina o quanto caem como uma luva, de tão verdadeiras e de tão nobres.
Obrigado pelas suas palavras, obrigado pela pessoa sensível e amorosa que é, e que todos amam, pois ao partilhar sentimentos e ideias descobrimos que não estamos sós, ainda que distantes, obrigado pois sem si o mundo seria muitissimo mais pequeno e teria a vida muito menor significado.
Quando escrevo, escrevo esperando poder ajudar ou alcançar alguém, além da ajuda e alcance que presto nesse entretanto a mim própria.
Fico por isso feliz se de algum modo as minhas palavras nos tornam mais próximos.
Um abraço e todas as felicidades!
Maria de Lurdes Fonseca.
Querida Lurdes, obrigado por ter respondido à mensagem anterior (apesar do anonimato), o carinho que sinto por si é muito grande, admiro-a muito.
Por vezes quando me sinto só, desiludido e triste venho aqui ler os seus textos, com os quais fico sensibilizado devido à beleza, sensibilidade e ternura com que escreve, e isso faz-me sentir que não estamos sós, que há pessoas com as quais me identifico e que têm um coração humano e generoso como é o seu e saiba que merece ser e é de facto muito amada.
beijinhos
Um coração
Obrigado por tudo o que escreve, mas especialmente pela última linha. Custa-me sempre tanto acreditar nisso, porque inadvertidamente (até sei) mas automaticamente, tendo sempre a esperar dos outros a mesma inflexibilidade e dureza que aplico na relação comigo própria. Para atingirmos a felicidade é essencial que sejamos gentis e tolerantes connosco próprios. Para mim é uma luta. É sempre uma ajuda lermos que nos apreciam.
Desejo-lhe o melhor,
Maria de Lurdes Fonseca.