Balançar, balançar, balançar… e sair
Costumava dizer ao meu Amor que ver as coisas pelo que são e aceitar as coisas como são é a verdadeira qualidade de “super-herói”, porque ser-se humano e “super-herói” é menos ser omnipotente e mais ser fraco e corajoso; é menos ser omnipresente e mais ser discreto e flexível; é menos ser omnisciente e mais ser ignorante e humilde.
Não sei exactamente se ele entende isto, se alguma vez entendeu o pleno alcance do que disse, pois tudo o que assim se diz, profundo, sentido e repetido, não pode deixar de ter grande dimensão autobiográfica (dimensão essa que talvez ele não tenha apreendido, na essência), mas é minha profunda convicção de que assim é – de que só isso é verdadeira fortaleza. Essa convicção faz com que eu não abdique, junto dele, de ser tão fraca, tão volátil e tão ignorante como possa, talvez até, por vezes, exagerando no quão o possa ser. Todos necessitamos de um espaço de suprema liberdade e de plena aceitação. Aí, ser tão pouco quanto pudemos ser é simultaneamente a moeda que paga o facto de nos tornarmos nesse lugar mais que tudo a que, loucamente, poderíamos almejar, e a prova encarnada de que esse espaço é autêntico e que dele podemos depender.
Lembro-me agora de uns versos toscos e infantis que um dia escrevi para ele e que procuravam transmitir mesmo isso. Deixo-os abaixo se prometerem que não olham para a minha clara falta de talento e não me envergonham ou embaraçam com comentários… chama-se “Quando fui menina fui vaidosa” e é pessoal e tem dono.
Quando fui menina fui vaidosa.
Quando fui menina fui vaidosa.
Pendurei cerejas nas orelhas,
para a fronte enaltecer.
Esmaguei amoras vermelhas,
p’ra com o suco enrubescer.
Mordi os lábios com vigor,
p’ra se avermelharem sozinhos.
Nos braços enleei ervas e flores,
tirando pulseiras aos caminhos.
Com arte os cabelos salpiquei,
de mil e uma bravias mimosas.
Nas pernas o casaco embrulhei,
p’ra envergar saias vistosas.
P’ra sentir como é ter saltos,
subi à ponta dos dedos dos pés.
Beijei-te em sonhos e sobressaltos,
larguei-me ao ritmo das marés.
E acomodei-me à beira-rio,
com a intenção de te esperar,
e aguardei horas a fio,
crendo que me vinhas buscar.
E depois anoiteceu,
sobre as faces primorosas.
E o vento recolheu,
dos cabelos as mimosas.
E depois arrefeceu,
E o casaco vesti,
E a fome apareceu,
e as cerejas comi.
E senti-me nua e feia,
E experimentei a solidão,
Implorei ao infinito,
Que te me trouxesse p’la mão.
E hoje que sei que foste tu,
por que esperei à beira-rio,
porque desesperei docemente,
porque tiritei de frio,
dou por mim a desejar,
estar à tua frente nua,
e que só assim me queiras,
e que assim me faças tua.
Dou por mim incomodada,
se algo deixar em mim,
quero que me queiras desarranjada,
pálida, natural, fragilizada,
e preciso que me ames assim.
Quando fui menina fui vaidosa.
Imaginam como é difícil ser racional ao ponto de abdicar desse espaço que é a encarnação mais profunda de nós próprios, quando o custo a pagar por ele tem que ser reconhecido como incomportável? É talvez o que de mais difícil a vida nos pode pedir.
A maternidade afecta a nossa vida de um modo insanável: limita-nos a liberdade. Não o faz pelas horas que consome ou por qualquer outra das suas particularidades (e sabem como a maternidade me encanta, pelo que imaginarão que não acho que esta limitação lhe afecte a maravilha), mas fá-lo porque deixamos de ser livres de assumir plena e autonomamente as consequências dos nossos actos, simplesmente porque essas consequências não podem deixar de ser partilhadas pelos nossos filhos, pessoalmente e socialmente. Por isso, se escolhermos morrer de fome, por mais que isso não nos importe pessoalmente, condenaremos os nossos filhos à falta de alimento e se escolhermos viver na rua, por mais que o desejemos, não teremos depois como os abrigar da chuva. E se quiserem dar a vida por alguém… bem, nesse caso terão que reconhecer que a vossa vida já não é só vossa porque não é justo para aqueles que de vós dependem, que dela disponham egoistamente.
Por isso, quando é hora, há que “balançar, balançar, balançar e sair”… as escolhas são assim: ou se fazem ou aprisionam-nos. Super-herói é aquele que compreende o que é inevitável e que tem a coragem, quer de o cumprir, quer de usar-se de dignidade e humildade enquanto o faz.





















Querida Lurdes,
só assim a posso tratar, pois acompanho o blogue diariamente.
Não se esqueça que quem é de Letras não se sabe dividir, nem sabe fazer balanços, sabe apenas VIVER intensamente, não deixando de ser quem é, mesmo que frágil, volátil, nua ou pálida.
Não faça balanços em vão, nem tome decisões absolutas e irremediáveis. Deixe-se ir no balanço da Vida, aceite todas as nesgas de luz que ela lhe der e nunca deixe de acrediatr no Amor. Só ele nos salva…Se nós quisermos. Um dia, acredite encontrará alguém, porque não o seu Amor, que embarcará nesse balanço. Para ambos se salvarem.
Continuarei acompanhar a sua brilhante carreira, os desaires da sua dieta e estarei aqui para perceber quando posso ou devo intervir. Abra o seu sorriso.
Filipa Botelho (sua ex-colega do ISCSP que nos deixa uma marca ou uma tatuagem pela vida fora)
Querida Filipa:
Não sou nada mais do que era quando partilhávamos as carteiras do ISCSP, sempre lado a lado, e para mim, a amizade, e a nossa em particular, não tem fronteiras. Peço-te pois que me trates por tu, como sempre, até porque (talvez não saibas isto) o tempo que partilhámos, em especial aquele segundo ano de licenciatura, foi para mim o ano de todos os sonhos, de todas as decisões, aspirações e vocações e só contigo partilhei tudo isso, nas viagens de 56, nos chás à beira-rio, e nas carteiras das salas de aula do Palácio Burnay – pelo menos tanto quanto partilhei com alguém, pois não tendo a grandes partilhas.
Revejo-me em tudo o que escreves e partilho dos princípios do que me aconselhas e que sempre tenho praticado e pratico. Ainda assim, há que reconhecer que salvando-nos, o Amor também nos condena. Não tomo decisões de ânimo leve, mas tenho que tomar decisões quando as decisões são necessárias e inultrapassáveis.
Se soubesses compreenderias, tu mais que ninguém, tenho a certeza.
Mil beijinhos e saudades,
Lurdes.
Obrigada pelo simpático e pronto comentário ao comentário.
Se algum dia vieres a Geraldes, diz-me com antecedência.
Talvez pudéssemos repetir o chá, desta feita à beira-atlântico. Estamos diferentes, mas talvez as essências estejam mais próximas e haja tanto mais para partilhar.
Seria bom trazeres o Pedrinho, o menino-mais-bonito-do-mundo. Talvez também ele venha a compôr o seu verso de pé quebrado, querendo competir com a mãe quando ela já foi menina vaidosa.
Grande beijinho. À espera de um contacto.
Como compreendes não vou publicar aqui o meu nº de telemóvel, mas através do meu e-mai posso dar-to.
Querida Filipa:
Assim farei, com certeza, tão rapidamente quanto possível. Mandar-te-ei um e-mail e logo combinaremos pormenores. Chá à beira-atlântico é simplesmente irresistível :)
Mil beijinhos e saudades,
Maria de Lurdes Fonseca.
[...] Foram vários os que leram perfeitamente a minha tristeza, especialmente desde aqui e me mandaram mimos, muitos mimos, tantos mimos, que [...]
Querida Lurdes,
Querida Lurdes,
Permita-me Cara Professora, ao menos hoje, que a trate de uma forma mais próxima e menos formal, mas com o costume respeito, admiração e carinho que lhe devoto)
De facto ver as coisas como são e aceita-las é a verdadeira qualidade dos heróis (e também dos sábios acrescento eu).
Da fraqueza e coragem, da descrição e flexibilidade, da ignorância e humildade só te falta a ignorância, pois emana de ti a sabedoria, que transmites tão naturalmente fazendo da sociologia não uma disciplina mas uma arte de viver, uma arte libertadora e consciencializadora, na qual os alunos se iluminam.
Da tua fraqueza, fazes a tua força, tão suave e doce é a tua fragilidade dos gestos, a ternura e força do teu olhar, ao mesmo tempo suave, penetrante e marcante, pleno do amor mais genuíno que alguma vez vi.
A tua coragem, é o uso e o exercício sábio deste espaço público, que é teu, nosso, é universal e livre, aberto a todos os que te compreendem e sentem o mesmo valor da vida e do amor.
A discrição são os traços ternos dos textos que a nós tanto ajuda, pois sofremos todos nós que somos humanos, do mesmo “mal/bem” de amar, de buscar a verdade, buscar a sabedoria, buscando o próximo, e assim descobrimo-nos a nós mesmos qual num espelho ao descobrir-te aqui.
A tua humildade é o reflexo de todas as outras qualidades, somadas, juntas, aliadas ao teu ser que te faz única, que te faz ser amada mesmo que o não saibas. Mas acima de tudo ensinas-nos a ser humildes só com a tua maneira de ser, sentir, escrever e amar.
Tenho pena de não ser herói, falta-me a coragem, (…) mas não falarei de mim, falo antes da “menina que um dia foi vaidosa”.
O teu poema expõe de forma translucida tudo o que escrevi aqui e muito mais, deixa que discorde do que disseste Querida Lurdes, pois para mim o teu poema é lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo e profundo como a autora. Continua a escrever poemas assim.
Desejo-te de todo o meu coração as maiores felicidades.
Beijinhos
“Um Coração”
Como me posso sentir merecedora de tudo o que escreve, especialmente quando me sinto apenas o reflexo tosco da tentativa e erro que é a procura por vezes demasiadamente atabalhoada e ausente de certezas de mim e do meu lugar nas coisas, nos sentidos e entre as pessoas?…
Leio muito de mim no conteúdo e forma do que escreve. Escreva sempre, mas mais sobre as coisas, as pessoas, os sentimentos e o mundo, que sobre mim. Não sei responder à altura generosidade do que me deixa pois, como disse, não me sei rever nessa fantástica pessoa que descreve.
Beijinhos,
Maria de Lurdes Fonseca.
Querida Lurdes,
Antes de mais, deixe-me dizer que me é impossível de te chamar de Querida, não o faço por mal, e não a uso de modo leviano, mas é antes (e com todo o respeito) a expressão mais sincera do que de facto és, uma pessoa muito, muitíssimo querida de todos em geral e de mim em particular.
Quanto ao que me pedes, para escrever sobre tudo um pouco e menos de ti, também não o posso fazer. Porquê? Porque devo dizer-te que não estás aquém do que escrevo, mas sim transcendes e atinges o que a maioria dos comuns mortais jamais conseguirá atingir.
Dizes-me dos erros e tentativas, e digo-te o quanto é bom aprender com eles, quão maravilhosa é a vida com tentativas e aprendizagens.
Quanto a imperfeições, quem as não tem? quanto aos limites, quem os não experimentou? Nada disso diminui a tua grandeza, simplesmente nada.
Que seria do dia sem a noite, da luz sem a escuridão, do Homem sem a Mulher, do Amor sem a busca e da Vida sem o Amor?
No meu intuito e ânsia de verdadeiramente de te mostrar o quão grande e amável és aos olhos de todos os que te rodeiam vou emprestar-te meus olhos, ver-te-ás como eu te vejo, admira-te, contempla-te.
Empresto ainda meus ouvidos, e ouve a melodia que emana do teu ser, a voz, doce, suave, amável; goza pois deste prazer de te ouvires a ti mesma.
Toca-te com as minhas mãos nas tuas próprias mãos, sente-as e verás como te sentem todos que te amam, saberás como te sinto.
Empresto-te todos os meus sentidos, para que te conheças através deles, usa-os, descobre-te, ama-te, ama-te, ama-te, porque tu és inteiramente amor.
Agora vou te emprestar o que de mais caro tenho, toda a minha riqueza, tudo o que sobrou de tudo o que perdi, nada mais tenho que seja meu verdadeiramente meu, só isto que te empresto, peço-te que o uses agora. É o meu coração.
Usa-o para sentires em ti, descobre cada canto, cada labirinto, descobre-te nele, surpreende-te, admira-te, goza a plenitude da sensação maravilhosa dos sentimentos que de ti emanam e desenvolvem-se neste coração que tens em tuas mãos.
Querida Lurdes, consegues agora ver e compreender como estás além do que escrevo, que transcendes tudo o que em poesia ou prosa possa ser dito de ti?
Agora, por favor, devolve-me os meus ouvidos para que te possa voltar a ouvir, gozando o prazer de uma doce melodia.
Devolve-me também meus olhos, para que te possa contemplar, e todos os sentidos que te emprestei para que te descobrisses fora de ti.
Quanto ao Coração, não precisas devolver, é teu, apenas se mo permitires peço-te emprestado, para que dentro do meu peito possa sentir sempre a tua presença.
Um beijo grande e terno de …
Um Coração (que ama)
Sobre o que me escreve gostaria de dizer três coisas:
1- Que é demasiado generoso;
2- Que me idealiza: construiu uma imagem de mim que não creio ser real, o que é humano, compreensível (eu própria já o fiz exageradamente), mas ainda assim uma projeção de algo que não existe.
3- Que não sei como o interpretar pois não sei quem é (o seu nome não me diz nada). Naturalmente se souber que me conhece (pessoalmente e com que grau de profundidade) interpretarei de um modo o que me escreve; se não, interpretarei de outro.
Agradeço contudo a sua simpatia e generosidade sem limites. Felicidades,
Maria de Lurdes Fonseca.